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As três paisagens marítimas e a intervenção mural realizada aqui por François Andes a partir de duas figuras mitológicas da Dinastia Wei do Norte, são inspiradas também no devaneio do poeta romântico inglês Samuel T. Coleridge (1773-1834) que, após ter lido o relato de viagem sobre a ida de Marco Polo à China, escreveu o poema Kubla-Khan.

Guilherme Gontijo Flores lê a tradução de Adriano Scandolara do poema Kubla-Khan, de Samuel T. Coleridge

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Kubla Khan

Em Xanadu, fez Kubla Khan
Construir um domo de prazer:
Onde Alph, rio sacro, em seu afã,
Por grutas amplas e anciãs,
     Ia a um mar sem sol correr.
E as milhas dez de fértil terra
Cingiam-se em fortins de guerra:
E nos jardins corriam os canais
Por incenseiros sempre a florescer;
E bosques como os montes, ancestrais,
Que o verde ensolarado ia envolver.

     E, ah! a fraga romântica inclinada
     Outeiro abaixo, de um cedral frondoso!
     Visão selvagem! Sacra e encantada,
     Como a minguante, de uivos assombrada,
     Da jovem por seu infernal esposo!
     E um caos da fraga irrompe, fervilhando,
     Como se fosse a própria terra arfando,
     Estouram fortes fontes, que, em momentos,
     Num jato atiram colossais fragmentos:
     Em arco qual granizo ao chão caído,
     Ou grão com joio no mangual moído:
     E em meio às rochas nessa grande dança
     Perene, logo o sacro rio se lança.
     Por cinco milhas na dedálea ida,
     Por bosque e vale, o rio, em seu afã,
     Cruzando grutas amplas e anciãs,
     Afunda em ruído na maré sem vida.
     E nesse ruído Kubla veio ouvir
     A guerra, em voz profética, por vir!

     A sombra do domo de prazer
     Vai pairando sobre as vagas;
     Onde ouvia-se o som crescer
     Pelas fontes, pelas fragas.
Era um milagre do mais raro zelo,
Um domo ao sol com grutilhões de gelo!
     E o que em visão foi-me mostrado:
     Saltério à mão, com voz sonora,
     Era abissínia a donzela
     E, com seu saltério, ela
     Cantava sobre o Monte Abora.
     Se o seu canto e sinfonia
     Pudesse em mim eu reavivar,
     Tal júbilo me venceria
Que co’a canção iria, no ar,
Erguer o domo ensolarado,
O domo! O grutilhão glacial!
E a todos seria mostrado:
Diriam, Cuidado! Cuidado!
O olho em luz, cabelo alado!
O olhar cerre em temor freiral,
E três voltas teça ao redor,
Pois que ele sabe o sabor
Do mel, do leite Celestial.

(tradução de Adriano Scandolara)