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Nesta intervenção artística in situ criada a partir de quatro paisagens (Shan Shui) com caligrafia, pertencentes à Coleção Asiática do Museu Oscar Niemeyer, François Andes realiza um encontro com o desconhecido. Trata-se de um encontro com um artista desconhecido, uma paisagem desconhecida e uma estética desconhecida. Alimentando-se destes desconhecidos, François Andes utiliza-se de um princípio técnico que o acompanha há anos: o “cadavre exquis” (cadáver esquisito). Neste jogo intelectual inventado na França, em 1925, pelo movimento surrealista, o discurso literário convencional é subvertido com o propósito de inserir palavras inusitadas em uma mesma frase. Outra curiosidade a respeito deste método é que ele agrega mais de um autor. Cada um intervém de maneira livre, dobrando, porém, o papel para que os demais colaboradores não tenham conhecimento do que foi escrito. Transpondo esta técnica para o desenho, François Andes toma os traços deixados pelo artista anônimo como pontos de partida para a realização de um desenho a quatro mãos.

Desta forma, as quatro pinturas chinesas criadas durante a dinastia Qing tornam-se um registro pictórico e, ao mesmo tempo, uma espécie de ponte, permitindo ao artista contemporâneo cruzar a temporalidade que o real tenta nos impor para rapidamente se movimentar com desenvoltura nesse “outro mundo”. As paisagens oníricas de Andes, construídas a partir da sobreposição de imagens que surgem na parede da galeria com seus significados próprios e distintos, formam um complexo texto pintado, remetendo-nos aos planos cinematográficos de Kenji Mizoguchi. Enquanto a arte ocidental é marcada pelo desaparecimento gradual do gesto, a conceitualidade existente na obra de Andes não o recusa como chave para enxergar a nossa própria natureza e, em decorrência, as paisagens que nos cercam. Ao contrário, no universo artístico de François Andes, a busca pelo domínio do gesto e do detalhe se torna um rito na prática do artista.