GLOSSÁRIO

O presente glossário, no qual se encontram as principais referências que constituem a base curatorial do projeto, é proposto com o desejo de que o público viva da melhor maneira possível esta “travessia”.

Estes elementos abrem inúmeras possibilidades de navegação em meio à multiplicidade de linhas traçadas. Através delas, cada pessoa é também convidada a esboçar um mapa da própria cosmogonia explorada durante o processo artístico/curatorial, o qual resultou na presente exposição.

Conexões subjetivas de natureza programática, que, no entanto, esquivam-se de uma mera conduta linear, esculpindo meandros no espaço expositivo. Convidamos o público a deixar-se levar pelas correntezas, a aproximar-se de praias desconhecidas cujos destinos ainda fogem às divindades, talvez a conversar com os passantes, que sabem que não devemos quebrar o imperioso silêncio da beleza...

Rio

Desde a nascente flui o rio, que, de confluência em confluência, transforma-se num curso de água maior até desaguar na vasta extensão de água que se perde no horizonte. É a paisagem circundante que foi escavada, talhada, metamorfoseada pela passagem quase intemporal das águas correntes, lembrando-nos que um mundo orgânico, onde a natureza é revelada, nos conecta mais às nossas origens do que os grandes macacos, entre os quais figuram alguns que se tornaram nossos antepassados.

SHAPE (Quartel-General Supremo das Potências Aliadas na Europa)

1) Desde 1967, o Quartel-General das Potências Aliadas na Europa, localizado ao nordeste da cidade de  Mons, entre Les Bruyères e Brisée. Esta base militar é completamente fechada ao público, rodeada por uma cerca dupla de arame. É habitada principalmente por soldados americanos que vivem num vácuo, fiéis aos seus hábitos.

2) O lema inscrito no brasão do SHAPE é: Vigilia Pretium Libertatis, “Vigilância é o preço da liberdade”.

3) Em inglês, a palavra shape significa dar forma a algo.

Fronteira

Limite que separa um estado de outro estado, limite do território de um estado e sua jurisdição territorial, limite separando duas zonas, duas regiões caracterizadas por fenômenos físicos ou humanos diferentes.

Artemis

Ela reina nas terras localizadas além dos campos, Agros, nos espaços liminares, nas costas, nos pântanos, na orla das florestas, nos limites extremos entre o território da cidade, o qual os gregos chamavam de Eschatias. Por extensão, ela é uma divindade das margens, guardiã da transição entre o espaço selvagem deserto e o estado civilizado. Em Bauron, na Ática, as meninas de Atenas deviam ter entre 5 e 10 anos para poder se casar, reclusas no santuário de Artemis, transformadas em ursos pelos jogos de mímica. Diz a lenda que um urso selvagem havia saído da mata, vindo para o santuário. Lentamente, foi se acostumando à presença dos homens até se familiarizar com eles.

Centro de Dados do Google

Um dos centro de dados do Google está localizado na cidade de Saint-Ghislain, a oeste de Mons. Paradoxalmente, este local onde a maior parte dos dados digitais trocados no Norte da Europa transitam e são armazenados está fechado ao público. O centro de dados está equipado com um sistema de resfriamento de servidor que utiliza água de recuperação da cidade. O Google comunica amplamente sobre este virtuoso dispositivo ecológico. Os centros de dados espalhados pelo mundo representam 4% do consumo global de energia.

Fukushima Daiichi

Em 11 de março de 2011, como consequência do maior terremoto já registrado no Japão, um tsunami submersa a usina nuclear de Fukushima Daiichi. Desde então, as instalações nucleares foram continuamente resfriadas através da injeção de água marítima misturada com vários produtos químicos, e cercadas por enormes tanques a fim de descontaminar a água contaminada.

São Jorge

1) Figura importante na religião católica. Usando um capacete de couraça, montado num cavalo preto, ele ergue sua lança, corta o ar de seu sabre, mas essas armas se quebram contra a armadura de escamas do dragão. Finalmente, é a pistola que derrubará o animal maligno com o terceiro golpe.

2) São Jorge e o Dragão é um tema recorrente na história da arte, pintado por Paolo Uccello (1470), Carpaccio (1502), Rafael (cerca de 1505), Peter Paul Rubens (1606-1608) entre outros, representando o santo padroeiro dos cavaleiros (George de Lydda) matando um dragão para libertar de suas garras a filha de um rei. Consequentemente, o monstro reptiliano se submete à princesa enquanto a cidade vizinha é convertida ao catolicismo.

Dragão

1) Palavra de origem grega, cuja etimologia nos remete ao verbo derkomai, significando "ver, olhar com um olhar penetrante".

2) Nas tradições ocidentais mais antigas, o dragão é uma lendária criatura quadrúpede e alada, cujas pernas terminam em garras afiadas. O corpo, coberto de escamas, é estendido por uma longa cauda e a boca do monstro cospe fogo. Esta fabulosa representação está geralmente associada à selvageria, guardiã de tesouros incomensuráveis, vivendo escondida nas profundezas da terra e sendo capaz tanto de semear o terror quanto de ajudar os homens. O cristianismo se apoderará do simbolismo ambivalente deste ser fantástico para perverte-lo, tornando-se assim o símbolo tanto das crenças pagãs como do paganismo. Movidos pelo maniqueísmo que os caracteriza, os cristãos da era medieval fizeram do dragão uma besta maligna, uma encarnação imediata de Satanás.

3) O dragão oriental representa as forças dos elementos naturais e deve ser considerado com respeito, pois, como a natureza, pode ser perigoso.

Os 9 Dragões do Mekong

O rio Mekong está entre os maiores rios do mundo. Começa nas montanhas Tanggula Shan do planalto tibetano e atravessa toda a península da Indochina para desaguar no Mar do Leste. Seu nome em vietnamita significa rio dos nove dragões, um rio que se separa em muitos braços da fronteira com o Camboja ao sul do Vietnã.

Niger

É o terceiro rio mais importante do continente africano. Nascendo na Guiné, sobe em direção ao norte tocando o Saara, cruzando o Mali para desaguar no oceano Atlântico, passando pelo Benin e pela Nigéria. Ele termina se dividindo em 9 braços, no Delta do Níger.

Oxum

No candomblé, Oxum é a divindade das águas e dos rios. Uma das esposas de Xangô, orixá do raio e do trovão, que a cortou em nove pedaços durante um acesso de ciúme, jogando-os no rio.

Rio Mekong

1) O rio Mekong é um dos lugares mais afetados no mundo pela elevação do nível do mar, consequência imediata das mudanças climáticas.

2) Um rio tumultuado como os chineses o chamam, ele próprio está sujeito a transbordamentos muito regulares.

3) Durante a década de 1970, os cadáveres flutuando em grande número no rio anunciaram aos vietnamitas que abusos terríveis se sucediam no Camboja.

Lago de Nemi

1) Provavelmente, trata-se do local do famoso banho da bela Artemis interrompido por Acteon, o caçador.

2) Calígula construiu um santuário monumental, assim como vários navios, em homenagem a Diana. Um deles carregava um templo em homenagem à deusa e outro continha um verdadeiro palácio flutuante para o imperador. Estes afundaram ou foram afundados após a morte do déspota. Por muito tempo, os pescadores às vezes traziam antigos objetos valiosos, a ideia de um tesouro escondido no fundo do lago era muito difundida.

3) Diferentes tentativas de escavação arqueológica tentaram remontar os navios e foi em 1929 que uma nova campanha foi finalmente vitoriosa. Benito Mussolini orgulhou-se desta descoberta e mandou construir um museu na margem do lago, onde foram expostos os barcos restaurados. Em 1944, o museu foi totalmente destruído por um incêndio.

Actéon

Durante uma de suas muitas caçadas, Actéon surpreende Ártemis tomando banho nua. Furiosa, ela o transforma em um cervo e os cães de Acteon, não reconhecendo seu dono, saltam sobre ele e o devoram.

Iorubá
Grupo étnico presente principalmente na Nigéria, Benin, Gana e Togo. O comércio de escravos para o Brasil deportou parte importante da população iorubá para as costas do Novo Mundo, sobretudo para Salvador da Bahia, no Brasil, e também para Cuba.

Candomblé

É uma religião afro-brasileira, baseada no culto ativo aos Orixás, as diversas divindades do Candomblé, cada uma ligada a um elemento natural. Durante as cerimônias, os Orixás são evocados a literalmente “montar” a mente e o corpo de seus seguidores em transe. As cerimônias acontecem nos Terreiros, onde os Orixás são convidados por um conjunto de cantos rituais marcados por tambores, danças, mas também por preparações culinárias.

Oxalá

Um dos orixás do Candomblé. Sua missão era criar a terra, usando um saco cheio de areia. Mas o impetuoso adormeceu no caminho, após beber muito vinho de palma. Foi então que Orunmilá roubou sua bolsa e despejou o conteúdo que se encontrava no interior, permitindo ao mundo finalmente ver a luz do dia.

Poço

1) Na cultura iorubá, é a passagem para o outro mundo chamado Orun. Os orixás vivem na terra ou no subsolo e o paraíso é inexistente, pois a natureza oferece tudo para todos. Noções de bem e mal estão ausentes nesta cultura.

2) Em Ifé, na Nigéria, ainda existem três poços que são destinos de peregrinações.

3) Esta é também a passagem utilizada por Alice para descobrir o País das Maravilhas.

Iemanjá

1) Após ter sido violada por seu próprio filho, Iemanjá chorou abundantemente e a água jorrou dos seus seios, em uma torrente contínua que inundou o mundo, criando assim os mares e oceanos.

2) Iemanjá é um Orixá aninhado na espuma das ondas. Ela é particularmente adorada em Salvador da Bahia, no Brasil.

Ísis (deusa egípcia)

1) Isis, filha de Geb e Nut, irmã e esposa de Osíris, consegue encontrar os 14 pedaços do corpo de Osíris, espalhados nos pântanos do Delta do Nilo por Seth, seu ciumento irmão. Apenas o sexo de Osíris não pôde ser encontrado. Ajudada por Anúbis, ela reconstituiu o corpo de seu amado e por sua poderosa magia conseguiu reanimá-lo e fazer amor com ele, dando à luz a Hórus.

2) Nas águas turvas do rio Mekong, às vezes um estranho peixe luminescente pode ser visto, um falo parece estar em sua barriga transparente.

O passante

1) Na sociedade egípcia antiga, aqueles que garantiam a passagem de uma margem a outra do Nilo eram recompensados com um lugar muito importante na hierarquia social.

2) Ré, deus do sol e criador do universo, navega todos os dias em seu barco sagrado no céu e todas as noites nos mundos subterrâneos, onde é atacado pela serpente Apófis, que ardentemente deseja mergulhar a terra nas trevas. Apoiado em sua luta por Seth, ele sai sistematicamente vitorioso, e assim o sol matinal aparece no horizonte.

Seth

Ele comanda trovões e relâmpagos e exerce seu poder sobre as regiões desérticas, as planícies áridas além do fértil vale do Nilo.

Aokigahara

1) Uma floresta também conhecida como Jukai (mar de árvores). Ela está localizado no sopé do Monte Fuji, no Japão. É conhecida por ser um lugar que muitas pessoas escolhem regularmente para se suicidar.

2) As bússolas falham em Jukai.

Máscaras

A máscara esconde um rosto, e é este que habita a máscara. Os gregos pensavam essa associação teatral como uma unidade, o prosopon, a máscara e o rosto, já que o rosto também pode se congelar em uma expressão mais radical, assim como esmaecer ao ponto de ficar impassível. Na Ásia, os fantasmas usam máscaras de acordo com suas origens, sendo seus personagens mais ou menos nocivos.

Bagne

1) A palavra francesa Bagne designa um estabelecimento penitenciário de trabalhos forçados.

2)  A palavra “bagne” (prisão) vem do italiano bagno, tendo a sua origem no nome de uma prisão em Livorno, construída no local dos antigos banhos públicos romanos.

3) Na França, o uso de condenados como remadores nas galés reais remonta ao século XV. A pena das galés foi aplicada sistematicamente a partir de Luís XIV.

4) Durante a ocupação francesa no Vietnam (Indochina), muitos oponentes à colonização francesa foram presos  na colônia penal de Poulo Condor (Bagne de Poulo Condor), instalada na ilha homônima (atualmente Côn Sơn), parte do arquipélago de Côn Đảo. Esta prisão, já utilizada pelos franceses em 1862, foi reutilizada pelos americanos durante a Guerra do Vietnã, permanecendo em atividade até 1975. Alguns presos ficavam ali trancados em "jaulas de tigre", o que os deixava paraplégicos, tendo perdido o uso dos membros inferiores após anos mantidos em posição agachada, sem conseguir ficar em pé e sem usar as pernas.

Barragem

1) barreira artificial feita pelo homem em cursos d’água para a retenção de grandes quantidades de água. Uma das primeiras barragens que se tem conhecimento é a da represa de Sadd-al-Kafara, no Egito, construída por volta de 2500 A.C. Segundo Heródoto, essa barragem se deve a Menes, unificador dos reinos do alto e baixo Nilo e tinha como finalidade proteger Mênfis das inundações de alguns afluentes do rio Nilo.

2) Em 05 de novembro de 2015, uma barragem de rejeitos de mineração rompeu-se em Mariana (Minas Gerais), despejando 43,7 m² de rejeitos de mineração nos afluentes do Rio Doce. Apenas um mês depois, 11 toneladas de peixes mortos foram retirados do Rio Doce, em Minas Gerais e no Espírito Santo. Em 25 de janeiro de 2019, uma segunda barragem rompeu-se no município de Brumadinho.

3) Em 2020, 42 barragens encontravam-se em estado de alerta apenas no estado de Minas Gerais.

Jesa (제사)

Jesa é uma cerimônia comumente praticada por católicos, budistas e não crentes em ambas as Coreias. As cerimônias são geralmente realizadas no aniversário da morte do ancestral, funcionando como um memorial aos ancestrais dos participantes. O aspecto culinário é extremamente importante nestes rituais e a mesa para as cerimônias é posta seguindo princípios rígidos, influenciados pela geomancia coreana (풍수 pungsu).

Rio das Mortes

Curso de água afluente da margem direita do rio Grande, no estado de Minas Gerais, Brasil. O rio foi cenário de um importante episódio na Guerra dos Emboabas. Embora essa guerra, cuja origem já está ligada à ambição humana e ao extrativismo mineral, tenha provocado muitas mortes, diz-se que o nome do rio deve-se ao fato de que muitas pessoas tenham morrido na tentativa de atravessar o rio a nado para não pagar os impostos devidos à Coroa Portuguesa.