24/08/05


Livro e exposição homenageiam Artigas

Em homenagem ao arquiteto paranaense João Batista Vilanova Artigas (1915-1984), que completaria 90 anos em 2005, o Museu Oscar Niemeyer, em parceria com o Instituto G Arquitetura - Casa Vilanova Artigas, realizam, na próxima quinta-feira (01/09), às 19h, uma palestra e o lançamento do livro Casa Vilanova Artigas Curitiba, a partir das 20h30. O evento será complementado com a realização da exposição da cadeira Preguiça, projetada pelo arquiteto. O evento é aberto ao público.

O livro, com 74 páginas, editado em português e inglês, organizado pela arquiteta Giceli Portela, apresenta detalhes da casa projetada em Curitiba por Artigas, na Rua da Paz. O texto principal, o qual relata desde a concepção da residência até a sua realização, é assinado por Marcelo Saldanha Sutil, doutor em História da Arquitetura. Entre fotos e detalhes da obra, o livro traz ainda depoimentos de reconhecidos arquitetos brasileiros como Paulo Mendes da Rocha, Joel Ramalho, Marcos Carrilho, Irã Dudeque, Key Imaguire Júnior e Manoel Coelho. A apresentação do livro é assinada por Rosa e Julio Artigas, com ilustrações do arquiteto Roberto Gandolfi.

 
A Casa
Construída entre 1953 e 1957, na Rua da Paz, a casa, atualmente sede do Instituto G Arquitetura, foi projetada para o médico João Luiz Bettega, em 1949. Com desenho e disposição arquitetônica incomum para a época, a residência criou polêmica e gerou críticas. Um exemplar da influência dos traços modernistas de Le Corbusier. Nela, todos os ambientes são voltados para a face que mais luz solar recebe em Curitiba, a face Noroeste.

Para alguns, apenas "um caixote de vidro e concreto", com a frente marcada em cor vibrante, um vermelho queimado. Porém, na ótica dos especialistas, atualizada e modernizada pela visão de "um mestre" que soube "mixar em seus projetos arquitetônicos as convicções políticas e estéticas". Em síntese, a casa projetada pelo arquiteto, filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro), para muitos, era quase uma subversão.
Nela, nada há de ostentação. Não há fachada cenográfica, aliás, nem há fachada. "A entrada da residência, lateral e quase no meio do lote, criou uma solução rara na Curitiba dos anos 50, assim como o quase esvaziamento da fachada, tornando-a semelhante à face lateral", afirma a arquiteta Giceli Portela, idealizadora e responsável pela restauração e transformação da casa em um instituto.

Para ela, outro ponto relevante na residência é o tratamento dado à dependência de empregada, com vista para o jardim interno. Artigas projetou-a como um apartamento à parte, com entrada independente, mas integrada ao corpo da casa e com a mesma insolação das dependências destinadas aos patrões. O destaque fica por conta da escada, em espiral, que encaminhava a esse quarto.

"Escada semelhante, de construção complexa e de grande valor estético, fora projetada por Artigas em outra casa, em São Paulo. No entanto, nessa residência, a escada localizava-se na área social. Já na casa da família Bettega, a escada fazia parte do setor de serviço, nos fundos, dotando-o de uma importância não imaginada anteriormente."
O livro Casa Vilanova Artigas Curitiba é resultado do projeto de recuperação dessa casa que por muitos anos foi pouco conhecida. A partir de abril de 2004, depois de restaurada e transformada no Instituto G Arquitetura - Casa Vilanova Artigas, a residência passou a ser espaço de atividades relacionadas ao arquiteto e a arquitetura.

Com cerca de 500 metros quadrados, a residência hoje é tombada pelo Patrimônio Histórico do Paraná. Distribuída em dois pavimentos, o piso térreo serve às principais atividades culturais como exposições, cursos e palestras. O pavimento superior é destinado à administração e serve de escritório para a arquiteta Giceli.


A cadeira

Com o sugestivo nome de Preguiça, a cadeira foi projetada por Artigas em 1945. Dada a sua importância para a história do designer brasileiro, a cadeira, construída em madeira e couro, está sendo reeditada pela empresa curitibana Desmobília. A empresa é especializada em produção e restauro de móveis de autor. A Preguiça está sendo produzida de acordo com as especificações e os projetos cedidos pela Fundação Vilanova Artigas. A produção é feita em pequenas séries, de 10 em 10 unidades, numeradas e com certificado de autenticidade. Uma delas permanecerá em exposição no Museu Oscar Niemeyer.

 
Artigas

A casa Vilanova Artigas, localizada na região do Rodoferroviária de Curitiba, é uma das quase 700 obras realizadas pelo arquiteto no País. Porém, as obras que o tornaram internacionalmente conhecido foram executadas em São Paulo como o Estádio do Morumbi e o prédio da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAUUSP).

Ao lado de Frederico Kirchgässner e Lolô Cornelsen, Artigas foi o responsável pelas primeiras manifestações modernistas na arquitetura curitibana. Graduado como engenheiro-arquiteto pela Escola Politécnica da USP, Artigas deixou outras significativas obras no Paraná, embora tenha atuado principalmente em São Paulo.

Em Curitiba, ele também assinou o projeto do Hospital São Lucas e da residência da família Niclievicz. Já no interior do Estado, em Londrina, projetou a antiga estação rodoviária, hoje transformada em museu, a Casa da Criança e o Cine Ouro Verde. Suas primeiras obras em Curitiba datam dos anos 40, quando sua arquitetura era fortemente influenciada pelos projetos de Frank Lloyd Wright. Mais tarde, ele assumiu a influência de Le Corbusier, marcadamente reconhecida na residência da família Bettega.

Também é forte na formação de Artigas a convivência com os artistas populares de São Paulo do grupo Santa Helena, a chamada "família artística paulista". Por essa importância de Artigas na história da arquitetura brasileira, todo o acervo de sua produção é preservado nos arquivos da FAU-USP.
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