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A
maior exposição de obras já realizada
no Brasil do mais importante pintor espanhol vivo, Antoni
Tàpies, de 82 anos, é apresentada em Curitiba.
Ligado aos maiores movimentos da arte no século
20 e considerado um mestre da arte contemporânea,
Tápies continua sendo um dos artistas mais atuantes
da arte ocidental. A mostra abre o Circuito Cultural
Banco do Brasil em Curitiba, que neste ano será
realizado no Museu e no Teatro Guaíra.
A exposição já foi apresentada
com sucesso em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
A curadoria é assinada pelo escritor e crítico
de arte francês Jean Frémon e pelo crítico
de arte brasileiro Fábio Magalhães.
A mostra apresenta cerca de 100 obras, entre pinturas,
gravuras e pôsteres, pertencentes à Galeria
Lelong Paris-Zurich, que representa Tàpies. Trata-se
de uma seleção de obras expressivas dos
últimos 30 anos de
trabalho do artista, como Le Repas, produzida em 1984.
De acordo com Magalhães, a pintura do catalão
é gestual, espontânea e, ao mesmo tempo,
reflexiva. “Suas telas são fortes, |
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poderosas, inclusive aquelas de pequeno formato. Sua
expressão é contundente, dramática,
cheia de vitalidade. Raramente na história da
arte nos defrontamos com artistas que tenham desenvolvido
uma obra e um pensamento tão complexos”.
A trajetória artística de Antoni Tàpies
sempre foi marcada por sua profunda reflexão
sobre o papel social da arte. Talvez nenhum outro artista
tenha se dedicado tanto a publicar textos sobre arte
e discutir em profundidade questões intrínsecas
à criação artística, como
destaca o curador Fábio Magalhães: “Tàpies
sempre manteve sua criação, sua reflexão
e suas ações em permanente resistência
à ditadura, sem submeter sua produção
nem colocá-la a serviço das ideologias
partidárias.
Ele concebe a arte como território para a liberdade.
Sua pintura é expressão de liberdade,
mesmo no período da ditadura franquista. Liberdade
frente ao medo de liberdade, dizia Tàpies. Para
ele, a pintura deveria exprimir a liberdade de maneira
radical”. |
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As
obras apresentadas estão reunidas por conjuntos,
de acordo com o gênero (pinturas, gravuras e pôsteres).
Segundo Magalhães, as 21 pinturas matéricas
(densas camadas de tinta que produzem um efeito de relevo
definido) e assemblages de grandes formatos da mostra,
datadas de 1971 a 2002, ilustram a extraordinária
utilização de materiais e texturas de
que o artista se vale para representar e transmitir
suas convicções intelectuais e políticas,
enraizadas na história da sua Catalunha natal.
Considerado um expoente internacional da pintura matérica,
Tàpies desenvolveu sua expressão dramática
e plena de vitalidade, a partir de influências
diversas: da origem catalã aos afrescos românicos
–que admirava desde a infância–, do
surrealismo à filosofia oriental e à ciência
moderna.
Misturar substâncias naturalmente granuladas,
como pó de mármore e areia com tecido,
barbante, palha, e sua habilidade de dar aos materiais
e símbolos mais primários um significado
inteligível e pungente, projetou Tàpies
no cenário internacional. As obras em exposição
exemplificam a relação inseparável
do artista com os meios que emprega. “Tàpies
criou, ao longo de sua carreira, um novo |
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vocabulário
plástico. A experimentação tem
sido uma constante na sua vida de artista tanto na forma,
nos materiais, como no conteúdo”, afirma
Magalhães.
As 54 gravuras originais, incluídas na mostra,
estão divididas em quatro séries: Matière
du souffle (Matéria de sopro), composta de 13
águas-fortes, produzidas entre 1990 – 1991
para um livro com texto de Jacques Dupin; Petrificada
petrificante, de 1978, formada por oito águas-fortes
assinadas por Tàpies para o livro de Octavio
Paz; La substance et les accidents (A substância
e os acidentes), série de 15 litografias em preto
e branco para a edição de luxo do livro
Antoni Tàpies - La Substance et les accidents,
de Jean Frémon; e Cartes per la Teresa (Cartas
para Teresa), composta de 18 litografias, sem assinatura,
publicadas em 1974 por Aimé Maeght.
A exposição Antoni Tàpies apresenta
também 19 pôsteres e o vídeodocumentário
Alfabet Tàpies, realizado em 2003, sobre o artista,
a obra e o processo de criação de Tàpies.
Os pôsteres são litografias originais criadas
pelo artista para eventos, como a Copa do Mundo de 1982,
na Espanha, e o torneio de tênis de Roland Garros
de 2000, em que o brasileiro Guga foi o vencedor. |
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Nascido
em Barcelona, em 1923, Antoni Tàpies é
autodidata como pintor. Embora desde muito jovem demonstrasse
interesse pela arte, foi estimulado pela família
a estudar Direito. Aos 18 anos, passou dois anos de
cama, em razão de uma lesão pulmonar,
“devido à miséria da Guerra Civil
Espanhola”, atribui. Ele conta que neste período
leu muito, ouviu música, rádio e pôde
se “formar muito bem espiritualmente”. E
foi através de seu médico, um amigo íntimo
de Picasso, que conheceu o artista, em Paris, tempos
depois.
Começou a estudar a arte moderna através
de livros e revistas catalãs do início
dos anos 30, durante o período republicano. Em
1946, alugou seu primeiro ateliê em Barcelona
e passou a dedicar-se à arte. Nessa época,
uniu forças com a vanguarda catalã contra
a censura do regime fascista de Franco. Este círculo
de artistas e escritores foi imensamente incentivado
por Joan Prats, um defensor das tradições
catalãs, intelectual e colecionador de arte moderna.
Prats apresentou a Tàpies a literatura surrealista
de André Breton e o pintor Juan Miró,
de quem se |
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tornou
amigo para o resto da vida.
O interesse dos surrealistas pelo inconsciente e por
objetos cotidianos influenciou a obra do jovem Tàpies.
Até hoje, ele diz aproveitar essa espécie
de instinto do inconsciente: “(…) quando
chego ao estúdio e pego uma tela em branco, por
vezes me esqueço do pouco intelectual que fui
e me deixo levar puramente pelo que dita o inconsciente
(….)”
Quando, em 1950, Tàpies foi para Paris, encontrou
um grupo de pintores, cuja produção começava
a ser classificada como arte informal. Esta pintura
gestual, simultânea ao expressionismo abstrato
em Nova York, enfatizava materiais e a expressão
através da fisicalidade da pintura. A obra de
Tàpies era freqüentemente comparada ao trabalho
desses artistas, pela expressividade dos materiais e
pelo uso comum do automatismo. A exploração
do inconsciente e a redução automática
das formas no abstrato, normalmente atribuídas
às teorias do Zen Budismo, são vistas
nas criações de Tàpies até
hoje. |
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“Sabemos”,
diz Tàpies, “que as melhores filosofias,
as melhores intenções e as crenças
mais sublimes não bastam para realizar obras
de arte. Cada vez que entramos em nosso ateliê,
nós nos defrontamos com uma tela branca que põe
novamente diante de nós todos os problemas que
pensávamos ter resolvido, e nos deixa sozinhos
para encontrar uma solução”.
Na
década de 40, seu trabalho revelava um interesse
por elementos táteis. Depois da primeira individual
em Nova York, em 1953, a obra de Tàpies ganhou
um caráter mais expressivo, resultando no que
se chamou, em 1954, de pintura matérica. Através
do uso de látex como agente de ligação,
Tàpies combinava pigmentos secos, areia, pó
de mármore, entre outras substâncias, para
criar telas que ele passou a ver como paredes. O artista
relembra: “minha pintura era cheia de arranhões,
mas, de repente, mudou; a qualidade como um todo era
diferente e se transformou em uma superfície
calma, quieta. |
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Eu compreendi então que havia pintado uma parede…”.
No final dos anos 60, Tàpies explorou a criação
de objetos tridimensionais, geralmente traduzindo motivos
de suas pinturas em escultura. Em 1970, levou o uso
do objeto cotidiano na tela um passo além em
Cadira Coberta – uma cadeira coberta com tinta
e sobras de roupas. Neste trabalho, Tàpies sugere
a apreciação da beleza nos detalhes mais
familiares, insignificantes. Através do uso destes
elementos o artista exalta objetos banais, mitificando-os
tanto quanto a mais sagrada das imagens.
Aos
82 anos, Tàpies ainda continua a aceitar desafios
em sua produção e mantém o sentido
de metamorfose. É nos trabalhos das três
últimas décadas que se pode testemunhar
o senso peculiar de espaço, o poder de sugestão
e uma qualidade extraordinária do precursor do
informalismo europeu. |
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A
relação de Tàpies com os signos
e o mundo |
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Entre
os numerosos signos utilizados na obra de Antoni Tàpies,
a cruz é o mais recorrente e fundamental para
a compreensão do conjunto de seus trabalhos.
O símbolo da cruz dá ao artista uma
grande variedade de significados: a cruz, e a letra
x, como coordenada espacial, como imagem do desconhecido,
como símbolo do mistério, para marcar
um território, como marca para sacralizar lugares,
objetos, pessoas ou partes do corpo, como estimulante
para inspirar sentimentos místicos, para pensar
na morte (mais particularmente na de Cristo), como
expressão de um conceito paradoxal, como símbolo
matemático, como sinal que serve para suprimir
outra imagem, manifestar um desacordo, negar alguma
coisa. Deve-se também fazer referência
aos símbolos que derivam de certos complementos
da cruz: tecidos, redes etc.”
Os grafites populares urbanos também se constituem
em outro ponto de interesse a Tàpies. O escritor
argentino Julio Cortázar fez um surpreendente
paralelo entre as telas do espanhol e os muros grafitados,
para o qual criou a expressão muro-pintura
e pintura-muro. Da mesma forma, as caligrafias asiáticas
impressionaram o artista, desde a juventude, “pelo
poder mágico de exprimir conteúdos”.
De acordo com Magalhães, o desejo de Tàpies
era o de fugir às regras da pintura clássica,
que ele associava à ditadura, para falar para
um mundo maior do que o da Catalunha, a região
da Espanha mais afetada pela severa repressão
de Franco. Tàpies não descarta a interpretação
política de parte da sua obra. Até a
morte do ditador em 1975, algumas telas transmitem
sofrimento humano e opressão, que podem ser
atribuídos às injustiças cometidas
contra o povo catalão, que permaneceu enclausurado
dentro do próprio país, sem direito
sequer ao passaporte.
O mundo
Embora não tenha exposto em solo brasileiro
muitas vezes, a relação entre Tàpies
e o Brasil sempre foi muito estreita. O poeta e diplomata
brasileiro João Cabral de Melo Neto, por exemplo,
(que serviu em Barcelona) foi quem apresentou pela
primeira vez ao
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artista “livros mais de
esquerda”. Tudo aconteceu durante um encontro
dos dois em Paris, quando Tàpies ganhou uma
bolsa de estudos do governo francês, em 1950.
Naquele período, os livros marxistas eram proibidos
na Espanha.
Também
partiu do Brasil um feito que marcou para sempre a
carreira do artista. Em 1953, na segunda edição
da Bienal Internacional de São Paulo, a pintura
Ásia, de Tàpies, ganhou o prêmio
aquisição. Foi a consagração
total, já que, da mesma Bienal, participaram
uma verdadeira constelação de artistas
consagrados como Piet Mondrian, Paul Klee, Kokoschka,
James Ensor, Edvard Munch, Henry Moore, Alexander
Calder, entre outros. A Bienal de 1953 contou até
com o empréstimo da tela Guernica, de Picasso,
pelo MoMA de Nova York.
A premiada Ásia, do período anterior
à experimentação de técnicas
e materiais que consagrou Tàpies, apresenta
uma figuração mágica, com elementos
gráficos que lembram Klee e Miró, afirma
Magalhães. A pintura pertence hoje ao acervo
do Museu de Arte Contemporânea da Universidade
de São Paulo (MAC-USP).
Ainda jovem, o trabalho de Tàpies ganhou o
mundo. Ele participou da Bienal de Veneza de 1952.
No ano seguinte, enquanto suas pinturas se destacavam
na Bienal de São Paulo, teve sua primeira individual
em Nova York (Martha Jackson Gallery). O artista voltou
à Bienal de SP em 1957, com trabalhos diversos
dos da primeira participação. Sobre
isso, já disse Tàpies: “Nesse
tempo, minhas pinturas se transformaram em um verdadeiro
campo de batalha de experimentos”.
O artista também esteve em várias edições
da Documenta de Kassel, Alemanha, e da Bienal de Veneza,
de 1954 e de 1993, quando ganhou o Leão de
Ouro. Em 54 anos de carreira, tem inúmeras
mostras na Europa e nos Estados Unidos, incluindo
mais de 20 retrospectivas nos EUA, no Japão,
e em vários países europeus, sendo a
mais recente, no Museu de Arte Contemporânea
de Barcelona, em 2004.
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