Grandes mestres da história da arte internacional estão reunidos nesta exposição. Dürer (1471-1528), Segers (c.1590-1638), Rembrandt (1606-1669), Goya (1746-1828), Manet (1832-1883), Rodin (1840-1917), Toulouse-Lautrec (1864-1901), Kandinsky (1866-1944), Max Beckmann (1884-1950), Klee (1879-1940), Miró (1881-1973), Chagall (1887-1985), Picasso (1881-1973), Ernst (1891-1976), Dali (1904-1989) e Warhol (1928-1987) são alguns dos nomes presentes na exposição.

Outros artistas de grande importância juntam-se a eles. São autores de obras representativas de momentos da história da arte em que a gravura foi instrumento de construção e o principal meio de poéticas artísticas específicas, como o expressionismo e a pop art.

Esse conjunto de obras-primas originais apresenta um significativo e abrangente panorama da História da Arte e da História da Gravura, desde o seu surgimento, no século 16, até os movimentos artísticos mais recentes, do século 21. A gravura em exibição mais antiga é de Albrecht Dürer, de aproximadamente 1.500. As 150 obras são provenientes de museus como Museu Het Hembrandthuis (Holanda), Museum Schloss Moyland (Alemanha) e Museu Jenisch Vevey (Suíça), além de coleções particulares da Bélgica.

“O objetivo é apresentar ao público os principais marcos da história da gravura na arte ocidental. Selecionamos obras desde a invenção da xilogravura. É possível observar ainda as diversas técnicas de gravura que tornaram possíveis não apenas a multiplicação de imagens, mas também a demonstração da maestria técnica. Além de exibir a capacidade de expressão de determinados artistas fundamentais no estabelecimento de paradigmas para a história da arte”, afirma o organizador e um dos curadores da mostra, Pieter Tjabbes.

 
 
     

Gravuras Originais

A gravura é a impressão no papel de uma matriz –em pedra, madeira ou metal –preenchida com tinta. Por isso, o surgimento da gravura está intimamente associado ao descobrimento e à fabricação do papel. Entre tantos artistas fundamentais para a compreensão da importância da
gravura na arte, levaram os curadores Ed de Heer, Filip Le Roy e Pieter Tjabbes a fazer uma delimitação e um recorte curatorial preciso. “Optamos por fazer um recorte capaz de manter essa visão histórica de longo alcance e, ao mesmo tempo, organizado em um discurso expositivo”,
diz Le Roy.

Segundo ele, estabelecer a distinção entre gravuras originais e as gravuras de reprodução ou de interpretação “foi a primeira escolha que norteou a seleção de obras”. Uma gravura é considerada original quando não apenas o tema, mas também a elaboração em si sejam feitos por um único artista, sem o auxílio de um mecanismo ou de algum processo fotoquímico adicional.

O termo “reprodução” ou mesmo “versão” é usado quando um artista plástico entrega sua obra para a execução de determinada técnica aos cuidados de outro profissional. O valor de uma obra não depende da técnica utilizada, mas do resultado final obtido.

“Embora as gravuras de reprodução representem numericamente a maior parte de toda a produção gráfica no Ocidente, optamos por incluir na exposição apenas as gravuras originais.” Neste contexto, são entendidas como gravuras originais aquelas idealizadas como composições inéditas. A expressão “gravura original” não é tão usual no português como no inglês,“original prints”; ou no francês, “gravure originale”, ou ainda “gravure de peintre”. Isso se deve ao fato de a “gravura original” ter surgido no Brasil apenas a partir do início do século 20, quando a “gravura de reprodução” já havia sido suplantada pelos processos fotomecânicos.

 
Assinaturas

Na Idade Média, as gravuras tinham como único objetivo a propagação da fé. As gravuras não eram assinadas, pois o que importava era a mensagem e não o artista. Era comum os artistas copiarem uns aos outros. No final do 15, como início da impressão com tipos (letras) avulsos, o
livro impresso começou a substituir os livros copiados à mão. Nesse período, também teve início o entalhe em madeira. Somente mais tarde é que começaram a surgir as iniciais, que se referiam ao autor ou a um ateliê. Os monogramas eram gravados diretamente no cobre.

Essa forma de trabalhar permaneceu até o final do século 19. A partir daí, vários artistas passaram a assinar os trabalhos encomendados, dando-lhes maior liberdade na elaboração de um tema. No século 20, uma assinatura gravada tornou-se raridade. A gravação passou a ser substituída por uma assinatura de próprio punho, a tinta ou a lápis. Normalmente, a assinatura é colocada no canto direito inferior, na margem da gravura, e, no canto esquerdo, o número de série da tiragem.

 

A exposição na visão dos curadores
por Filip Le Roy e Ed de Heer

Quando ouvimos falar de artistas plásticos como Rembrandt, Goya, Moore ou Picasso, imediatamente nos vêm à mente imagens de esculturas e pinturas. Isso é natural, pois a fama desses mestres se deve a esse tipo de arte.

Mas poucas pessoas sabem que esses artistas divulgaram suas grandes obras através da xilogravura, da gravura em metal e da litogravura. Além disso, o grande público desconhece o fato de terem sido essas as técnicas utilizadas por eles para mostrar suas possibilidades totalmente exclusivas de expressão.

Inicialmente o artista usava a arte gráfica, de fato, como catálogo: ele reproduzia e distribuía uma amostra de suas obras às editoras e aos amantes de obras de arte, conseguindo assim novas encomendas. Mas logo se descobriu que nessa técnica havia um caráter próprio, que ela podia ir muito além do objetivo utilitário, ‘mercantilista’.

A gravura tem características próprias, que exigem um grande conjunto de meios, uma série de passos intermediários, antes que a imagem seja reconhecida como arte plástica. Não demorou muito para os artistas descobrirem as possibilidades envolvidas nesse procedimento de gravação, permitindo novas formas de expressar seus sentimentos. Assim, é justamente através do seu trabalho gráfico que podemos conhecer melhor a personalidade do artista.

Mas isto não torna o trabalho gráfico evidente, pois o espectador raramente capta esses traços característicos, essa distância entre a visão, o conceito e o trabalho em si. A produção gráfica não tem por objetivo principal a exclusividade, e esse fato gera confusão e dúvida a respeito da autenticidade. Além disso, uma vez que os trabalhos são na grande maioria pequenos e nada extraordinários, eles tendem a ser subestimados.

Nesta exposição reunimos algumas gravuras que são verdadeiras obras de arte. Elas demonstram como os artistas, através dos séculos, superaram de forma magistral o procedimento puramente técnico dessa forma de expressão artística.

A exposição “Seis Séculos da Arte da Gravura” oferece uma amostra variada e cativante desse campo da arte e de sua história. As gravuras mostradas na exposição, ao todo 150, fazem parte do acervo de museus e coleções particulares da Bélgica, Alemanha, Holanda e Suíça, e na escolha buscou-se obter o máximo de representatividade. Assim, para dar o devido embasamento, estão representados os artistas mais importantes. Também se teve o cuidado de fornecer, com essa seleção, uma imagem fidedigna do tema escolhido e das técnicas que os artistas gráficos utilizaram ao longo dos séculos.

Episódios importantes na história da reprodução gráfica – como por exemplo a arte holandesa no século XVII, a arte por volta de 1900 e o Expressionismo Alemão – tiveram destaque especial, ao passo que períodos pouco expressivos, como o século XVIII, ganharam menos atenção. Ao lado de obras de artistas famosos foram incluídas gravuras de pequenos mestres, que não podiam faltar em razão do alto nível e/ou da originalidade de seu trabalho.


O uso da gravura no expressionismo
por Carlos Martins e Valeria Piccoli

O expressionismo é um fenômeno europeu do início do século XX que encontrou na Alemanha condições particularmente propícias para seu desenvolvimento. Em 1905, um grupo de artistas forma o Die Brücke (A Ponte), que terá continuidade no Der blaue Reiter (O Cavaleiro Azul), a partir de 1911. Apresentando propostas revolucionárias para o fazer artístico, esses artistas se opõem ao caráter essencialmente sensorial do Impressionismo. Se por impressão consideram a realidade que se imprime na consciência, por expressão entendem a subjetividade que se imprime à realidade. O Expressionismo pressupõe o compromisso do artista com relação às questões sociais e à situação histórica, almejando uma relação efetiva com a sociedade. Assim sendo, a questão da comunicação é de fundamental importância. Esses preceitos nortearam também os expressionistas que não participaram dos dois grupos seminais do movimento, e até mesmo as derivações ocorridas em outros países.

Os expressionistas recorreram largamente à gravura, que, em seus primórdios, foi a forma mais simples e direta de expressão e comunicação, tendo se tornado uma tradição para ilustrações na Alemanha. Assim, com a maneira artesanal pela qual a matriz é feita, o artista deixa expressa sua marca sobre a matéria resistente do metal ou madeira; impressa a matriz, a imagem se multiplica e propicia uma ampla circulação de suas idéias.

A linguagem formal da gravura se desenvolve ao mesmo tempo que a da pintura, e, ao exercerem mútua e íntima influência, constroem uma coesa poética visual, até então inédita em qualquer outro momento da história da arte. A força das imagens deriva da rigidez e angulosidade das linhas, da utilização de formas maciças, da simplicidade arcaica do fazer e da referência à arte dos povos de uma civilização mais autêntica. Imagens que prenunciam e registram um período entremeado de melancólicos e negros presságios de guerra e morte.

Schmidt-Rottluff, talvez o mais contundente dos artistas do Die Brücke, imprime em suas xilogravuras uma vigorosa tensão, ao passo que, entre os expressionistas independentes, Beckmann fere o metal com a veemência de sua ponta-seca para apresentar um “circo” de personagens e situações insólitas. Otto Dix, personagem predominante no período entre guerras, mostra o homem em sua penúria e estado peculiar, com malícia e fealdade.

 
 




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