Vinte mestres do design integram esta mostra inédita, que resgata a memória e a história evolutiva do moderno design brasileiro. A exposição apresenta 58 peças de mobiliário que servem de referenciais para a criação do design contemporâneo. Carlo Hauner, Ernesto e Geórgia Hauner, Flávio de Carvalho, Geraldo de Barros, Giuseppe Scapinelli, Gregori Warchavchik, Jean Gillon, Joaquim Tenreiro, John Graz, Jorge Zalszupin, Lasar Segall, Lina Bo Bardi, Michel Arnoult, Oscar Niemeyer, Paulo Mendes da Rocha, Sérgio Rodrigues, Vilanova Artigas e Zanine Caldas fazem parte dos Modernos Brasileiros que têm suas peças expostas.

Carlos Motta é apontado como o contemporâneo que tornou-se moderno pela aplicação, na marcenaria artesanal, de madeiras recicladas, recurso utilizado pelos modernos. Daí a justificativa para a expressão + 1.

A exposição conta com o apoio do Governo do Paraná, Secretaria de Estado da Cultura e CAIXA. “O critério de seleção das obras foi o diferencial: não expor o que todos já conhecem’, afirma a curadora Consuelo Cornelsen. Em parceria com o arquiteto Paulo Milani e a designer Adriana Adan, Consuelo realizou pesquisas durante três meses, que incluiu a visita a parentes de artistas e colecionadores de arte.

No caminho percorrido, a curadora encontrou o amigo Sergio Campos, da Artemobilia, pesquisador e colecionador de obras de arte. Com ele, Consuelo passou dias pesquisando móveis em catálogos e revistas, para depois localizar os proprietários. “Pela dedicação, conhecimento e entusiasmo”, ela convidou Campos para dividir a curadoria. O trabalho minucioso contou ainda com a colaboração de outros nomes que atuam no meio, como Carlos Warchavchik, que participa da curadoria parcial.

Warchavchik escolheu as peças mais representativas da casa de seu avô Gregori. Dele há objetos que “serviram a três gerações”, e só foram vistos publicamente na abertura da Casa Modernista, em São Paulo. Já as peças de Michel Arnault foram escolhidas dentro da casa de Annick, filha do artista, como a Mesa Lateral, que nunca havia sido exposta. A diretora da galeria Passado Composto Século XX, Graça Bueno, também foi uma das colaboradoras. A Galeria abriga um dos maiores acervos de Jean Gillon e Joaquim Tenreiro.

 
 
     
 
 
     
 

História e Arte

As peças guardam memórias de época, estilo, história e arte. O desuso de móveis pesados, rebuscados e de estilos europeus cedeu espaço à criação da moderna movelaria, de curvas suaves ou de linhas puras e retas. Ao findar do século 19 e início do século 20, ainda sem profissionais especializados, coube aos mestres artesãos, artistas e, especialmente, arquitetos construir a pioneira história do mobiliário moderno brasileiro. Mais de um século de história e arte!

Ao longo dessa evolução nacional, a França ditou moda com o estilo art deco, o racionalismo alemão conquistou adeptos e a Bauhaus preconizava a integração de todas as artes e a intrínseca necessidade de se aliar a estética à função, conceito que permanece atualíssimo até hoje. Enquanto nossos mestres amadureciam agregando conceitos em sintonia com outros movimentos autenticamente brasileiros..

Revolucionária, a Semana de Arte Moderna criou novos paradigmas na política do fazer e pensar a arte. Com isto, os arquitetos –até então apenas com a opção das peças inspiradas no período dos “Luízes” – passam a desenhar seus próprios projetos de móveis para ambientar as casas dos modernistas. Mais tarde, o momento favorável trouxe o Cinema Novo, a Bossa Nova e o Tropicalismo. Mas, decisivo foi o desenvolvimento da produção industrial, que possibilitou a criação de um design brasileiro moderno e com qualidade. O texto abaixo, assinado por Sergio Campos, sociólogo formado pela USP e proprietário da Artemobilia, detalha a evolução dessa história moderna.

 
 

Texto Geral
por Sergio Campos

Nesta exposição teremos uma rara oportunidade de ver lado a lado criações representativas de uma série de mestres, a grande maioria arquitetos, que escreveram os pioneiros e mais importantes capítulos da história do mobiliário moderno brasileiro, e consequentemente daquilo que chamamos de design ou arte aplicada no Brasil. Com esta privilegiada visão panorâmica, é indisfarçável a constatação da imensa riqueza e diversidade que pigmenta esta história, o que faz jus àqueles que defendem que o Brasil possui sim, uma escola e um estilo próprios na sua movelaria moderna assim como reconhecidamente o possui na arquitetura.

Esta diversidade nos permite olhares diferentes e que podem nortear um melhor entendimento sobre este tema. O primeiro olhar, talvez o mais recorrente, o olhar cronológico, registra os primeiros lampejos de modernidade já em 1915 com José Martinez Carrera e sua "Cama Patente", e nos leva até os primeiros grandes inovadores, como Gregori Warchavhik, colhendo os frutos dos movimentos modernistas e das artes decorativas na Europa e também da Semana de Arte Moderna de 1922, assim como Lasal Segal e John Graz. A influência do estilo art deco e do racionalismo alemão é notada nestes móveis autorais, produzidos em pequena série, destinados a mobiliar as primeiras casas modernas brasileiras. Foram estes os primeiros passos para "libertar o
Brasil dos luízes", como disse certa vez Joaquim Tenreiro, aludindo aos nomes de reis e rainhas européias dados aos pesados e paramentados móveis de estilo, até então era o que se encontrava nos lares de um Brasil colonizado.  

Momento marcante deste período foi a "Exposição de uma Casa Modernista" em 1930, na Rua Itápolis, em São Paulo, promovida por Warchavhik, que além da casa propriamente dita, expôs mobiliário, luminárias e objetos decorativos desenhados por
ele. Esta exposição durou um mês, foi um impactante sucesso de público e mostrou o que se repetiria sistematicamente na história do mobiliário nos 1940 e 1950: O descompasso entre a arquitetura moderna brasileira, precocemente avançada e reconhecida e o mobiliário moderno, ainda sem os profissionais gabaritados, como
designers e marceneiros especializados, obrigou os próprios arquitetos a cuidar desta tarefa, ou seja, mobiliar as casas por eles projetadas. Como certa vez Lúcio Costa disse para Sérgio Rodrigues: "Arquitetura sem mobiliário e decoração de interiores é
escultura", os arquitetos modernos brasileiros enfrentaram uma dupla responsabilidade.

No alvorecer dos anos 1940 temos a casa de Cataquases, para a qual Niemeyer chamou o marceneiro Joaquim Tenreiro que, em 1942, criou a “Poltrona Leve”. Temos os italianos que chegaram e se apaixonaram pelo Brasil, como Lina e sua importante “Cadeira Empilhável”, projetada para ser usada no pequeno auditório do recém
inaugurado MASP em 1947, Geancarlo Palanti, os Hauner e, mais adiante, imigrantes de outras nacionalidades como Zalszupin, Gillon, Anoult. O pós-guerra veio acompanhado da influência das tendências organicistas de origem norte americana, encontradas em Zanine nos "Móveis Artísticos Z", por exemplo, que ajudaram a pincelar com cores vibrantes os anos 1950. Tivemos o sucesso da I Bienal, o surgimento da televisão, a valorização da cultura brasileira através do Cinema Novo por exemplo, a construção de Brasília, e, nos aos 60, a politização estudantil e o tropicalismo. Ufa!  As condições favoráveis trouxeram o amadurecimento de uma procura e de um desejo: O móvel moderno brasileiro, a partir de uma estética e de uma consciência do nosso olhar como brasileiros: A “poltrona Mole”, de Sergio Rodrigues.

Este é o segundo olhar que nos orientará a conhecer melhor esta instigante história: A procura de uma linguagem brasileira para a criação do móvel moderno. JorgeZalszupin resumiu ao seu modo, esta questão. Quando lhe perguntei qual teria sido o momento mais marcante nos seus 50 anos de design no Brasil ele respondeu: "a Poltrona Mole". "Mas eu estou me referindo à sua carreira, sr. Jorge...", no que ele respondeu sorrindo, mas categórico: "a poltrona Mole". Sabemos que os modernistas de 22 tinham a proposta de resgate do primitivo para compor uma estética moderna. Isto está presente, nos movimento Pau Brasil e Antropofágico, por exemplo. Tenreiro revolucionou com a leveza  dos seus móveis, explorando magistralmente os limites da madeira brasileira , como o jacarandá, além de resgatar o uso da palhinha nos assentos. Porém, a procura por um olhar brasileiro teve em Lina Lo Bardi, que declarou "o Brasil é meu pais duas vezes", sua mais aguerrida defensora. "Prefiro a chita das Casas Pernambucanas ao brocado francês" disse, já encantada com a rede dos índios. Segundo ela, "um dos mais perfeitos instrumentos de repouso".

De acordo com Maria Cecilia Loschiavo dos Santos, "as percintas de couro que formam a estrutura da Poltrona Mole estabelecem uma filiação formal com as tradicionais redes, elemento representativo de nossa cultura". Esta procura gerou saudáveis derivativos, como a procura pela simplicidade diante da exuberância de nossas matérias primas, como em Paulo Mendes da Rocha, Oscar Niemeyer e Carlos Mota. Esta herança está presente hoje, nos designers e fabricantes que utilizam fibras naturais e madeiras nativas ecologicamente corretas em seus projetos e que abusam da simplicidade sem simplismo, e sim com elegância.

O terceiro olhar, também é uma abordagem importante, pois polariza aqueles mestres que trabalharam artesanalmente, para um pequeno público, ou mesmo para si próprios, e os mestres que tiveram em mente uma produção industrial mecanizada em larga escala. Neste primeiro time temos Warchvhik, Lasal Segal, John Graz, Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Giuseppe Scapinelli e Joaquim Tenreiro. E alguns, mesmo a contragosto, como Lina Lo Bardi, que ensaiou um projeto de industrialização com o Stúdio Palma e a marcenaria Pau Brasil. É interessante notar que muitos destes profissionais abriram suas lojas e galerias, e estas, tiveram um importante papel no sentido de apresentar ao público a ambientação de uma casa moderna, aglutinando olhares curiosos, às vezes espantados, mas sempre interessados, de um público cada vez maior. Foram de muita importância referencial as caprichadas galerias de Tenreiro no Rio de Janeiro e depois em São Paulo, as galerias Ambiente, Artezanal e Branco e Preto, em São Paulo, Sergio Rodrigues em Curitiba e depois no Rio de Janeiro com a Oca, Jorge Zalszupin com a loja da L’Atelier, no Conjunto Nacional em São Paulo.

Com o explosivo processo de urbanização era no Brasil, aumentava a pressão de uma emergente classe média por novos equipamentos domésticos, e isto incluía os móveis evidentemente. A Fábrica de Móveis Artísticos Z, de Zanine Caldas, foi a primeira a contemplar estas expectativas. Com produção mecanizada e racionalizada, com o uso minimizado de mão-de-obra especializada, Zanine recortou e parafusou o compensado naval com sinuosas e criativas combinações de curvas que se espalharam por milhares de lares brasileiros. Carlo Hauner e Ernesto Hauner se uniram a Martin Eisler e fundaram a Forma, que viria a ser um dos maiores fabricantes de móveis modernos no país, ao lado da Oca, da L’Atelier, da Mobília Contemporânea  de Michael Arnoult , da Mobilínea de Ernesto Hauner e da Hobjeto de Geraldo de Barros. Em comum a todas elas, a adesão às necessidades do mercado, abrindo cada uma, mais cedo ou mais tarde, uma linha exclusiva para mobiliário institucional e de escritórios, como já faziam a Cimo e Gerdau. Geraldo de Barros, em associação com os ideais do frei dominicano João Batista Pereira dos Santos foi protagonista de um capítulo ímpar desta história, a Unilabor, uma fábrica de móveis instalada no bairro do Ipiranga, em São Paulo, e que funcionou por mais de 10 anos como uma cooperativa, que procurou desalienar o operário do processo criativo e da tomada de decisões gestivas. Quanto ao nosso maior arquiteto, Oscar Niemeyer criador de uma pequena coleção de obras primas do mobiliário, com extraordinário impacto visual , disse, em recente depoimento a mim, que não se dedicou mais ao mobiliário por pura falta de tempo, dado o fato de ser requisitado "full time" como arquiteto. Sua filha, Ana Maria Niemeyer, pôs a cabo uma incipiente industrialização de suas criações, através de associações com fábricas como aTendo e depois com a Teperman, porém com períodos de longa descontinuidade da produção.
  

Pode parecer brincadeira, mas não é. O nosso time de brasileiros forma uma grande seleção, capaz de jogar de igual para igual com os grandes times europeus e americanos, seja qual for o olhar... É por isto que muitos dos livros de design e mobiliário do século XX tiveram que ser reescritos para incluir os modernos brasileiros, só recentemente reconhecidos e reverenciados. É por isto que exposições como esta deveriam e iriam acontecer mais vezes, para todos os olhares.
 

 


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