
Instigantes, as obras dos oito artistas que integram
a exposição recolocam em cena o insanável
questionamento sobre os limites entre a insanidade
mental e a genialidade, a loucura e a produção
artística. Genial, Van Gogh deixou exemplos
da riqueza desses tênues limites.
Limites, ultrapassados ou não, que o público
poderá observar nas 184 obras da mostra, a
maior parte inédita. Os autores, já
falecidos, passaram a maior parte da vida em um hospital
psiquiátrico carioca. No entanto, em seus trabalhos
se poderá ver tal equilíbrio de cores,
formas e feminilidade que constituem um conjunto de
obras de beleza rara, complementadas pela inquietude
do querer entender.
As obras demonstram o talento de Emygdio de Barros,
cujas aquarelas e guaches primam pela delicadeza,
sem perder a intensidade característica de
sua obra a óleo; de Carlos Pertuis a riqueza
da série "O Circo" e seus personagens;
nas esculturas e obras em papel de Adelina Gomes,
com suas instigantes simbolizações;
nas pinturas e nos desenhos de Raphael Domingues,
que dão testemunho das suas composições
espontâneas; e no colorido vibrante de Fernando
Diniz em composições com palavras, imagens
corporais e geométricas, que trazem novas facetas
de sua obra.
Soma-se a eles outros três criadores como Geraldo
Aragão, cujas fotografias, através do
contraste do preto e branco, caminham para a abstração;
as esculturas de Abelardo Corrêa, o mais clássico
de todos, mas que não deixa de ser inovador
e Arthur Amora que, segundo o curador Luiz Carlos
Mello, "prenunciou, inconscientemente, o nascimento
do construtivismo carioca com suas obras inspiradas
no jogo de dominós".
A exposição integra as comemorações
do centenário de nascimento da psiquiatra Nise
da Silveira, fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente,
cujo diretor, Luiz Carlos Mello, responde pela curadoria
da mostra no MON. A exposição realizada
em Curitiba é uma prévia da mostra que
será apresentada, em setembro, no Museè
Halle Saint Pierre, de Paris.
Ciência e Arte
O
método de trabalho no Museu de Imagens do Inconsciente
consiste, principalmente, no estudo de séries
de imagens. De acordo com os especialistas, isoladas,
parecem indecifráveis. Porém, organizadas
em séries de imagens de um mesmo doente, permitem
aos terapeutas e pesquisadores melhor compreensão
dos desdobramentos de processos intrapsíquicos
e do quadro psicológico do paciente. Outras
seleções reúnem temas de incidência
freqüente em diversos casos clínicos,
como mandalas, rituais, metamorfoses e animais fantásticos,
entre outros.
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"Uma coleção de arte psicopatólogica
única no mundo", afirmou o respeitado especialista
e professor da Universidade de Madri JJ. López
Ibor, por ocasião da inauguração
do Museu de Imagens do Inconsciente. Em abril de 2004,
o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan), em reconhecimento à importância
das obras para a cultura brasileira, tombou as principais
coleções que compõem o acervo.
Diretamente vinculado aos ateliês de pintura e
modelagem, seu acervo nunca deixou de crescer e a cada
dia recebe novos documentos plásticos. O acervo
do museu reúne atualmente cerca de 350 mil trabalhos.
Hospital e ateliês
Os
oito autores freqüentavam os ateliês da Seção
de Terapêutica Ocupacional, criado pela psiquiatra
em 1946, no Centro Psiquiátrico Pedro II, com
sede no Rio de Janeiro. O Centro hoje é denominado
Instituto Municipal Nise da Silveira, em homenagem à
médica que revolucionou o tratamento psiquiátrico
com a implantação de atividades nos ateliês.
Contrária aos conceitos até então
adotados em hospícios, a médica buscou,
nas atividades que trabalham a expressividade, uma alternativa
para tratar a loucura sem utilizar os procedimentos
convencionais da época como as sessões
de eletrochoques, o coma insulínico e as intervenções
cirúrgicas- lobotomias.
Inicialmente, os ateliês eram voltados às
diversas linguagens artísticas, incluindo a música,
o teatro, o artesanato, a pintura e a xilogravura, entre
outros. Porém, pintura e modelagem assumiram
posição de destaque no tratamento. Com
a grande produção dos pacientes, surgiu
a idéia de reunir essas obras em um museu. Em
1952, o Museu de Imagens do Inconsciente foi inaugurado.
Embora os trabalhos tenham surgido da pesquisa científica
sobre o processo psicótico, os autores já
foram reconhecidos na história das artes visuais
brasileiras. "As obras que compõem a mostra
foram selecionadas a partir do critério exclusivamente
artístico", enfatiza o curador.
Para contemplar o aspecto científico, o curador
programou a apresentação de um vídeo,
onde a médica Nise da Silveira fala da teoria
e prática de seu trabalho, e de 11 painéis
fotográficos, que resumem a trajetória
e o desenvolvimento de sua obra.
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| Polêmica
No
início da década de 50, alguns críticos
de arte se negaram a reconhecer o trabalho feito
pelos pacientes. O crítico Mário
Pedrosa caminhou contra a corrente. Ele criou,
a partir dessa experiência, o conceito de
arte-virgem. Em busca de uma designação
para esse modo do fazer arte, surgiram outras
denominações como arte-bruta ou
outside, entre outras. Enfim, para Pedrosa serviu
para definir a arte que não é forjada
em escolas, realizada por autores sem formação
artística.
"Pedrosa reconheceu a qualidade estética
nos trabalhos de alguns autores, classificando-os
como verdadeiras criações artísticas",
lembra Mello. Segundo ele, Pedrosa argumentava
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que
"o artista não é aquele que
sai diplomado da Escola Nacional de Belas Artes,
do contrário não haveria artistas
entre os povos primitivos, inclusive entre os
nossos índios". O curador trabalhou
ao lado da psiquiatra Nise da Silveira durante
27 anos e produziu 15 documentários sobre
as pesquisas científicas desenvolvidas
por ela no Museu de Imagens do Inconsciente.
Para o curador, muitos pacientes tiveram seus
talentos artísticos revelados por meio
da atividade terapêutica. "Os trabalhos,
dentro do tratamento terapêutico, são
como fotografias, instantâneas, do mundo
interno, do inconsciente dos pacientes. Além
de ser fonte de estudo, sobre a situação
psíquica do autor, muitos desses trabalhos
têm qualidades estéticas." |
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