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Em
pouco mais de 20 anos trilhando a poética figurativa,
Arcangelo Ianelli (São Paulo -1922) demonstra,
nas 82 obras apresentadas na exposição,
a sua nascente fase abstrata. Linguagem que adotaria
a partir da década de 60. Valorizada por características
próprias marcantes como a síntese, por
vezes a simetria, a planaridade, a verticalidade e a
geometria, encontradas na maior parte da produção
do artista a partir dos anos 70.
“(...) O período figurativo de Ianelli
é extraordinariamente rico. Sua produção
demonstra, ano após ano, um fazer cada vez mais
disciplinado e voltado para as contínuas sínteses
das imagens. Hoje, passadas tantas décadas da
fase figurativa, compreendemos melhor a íntima
relação que esse período mantém,
no conjunto de sua obra, com a fase abstrata que o consagrou
definitivamente (...)”, aponta o crítico
Fábio Magalhães. |
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Organizada
de forma cronológica, respeitando-se as diferentes
linguagens estéticas, os curadores Katia Ianelli
e Waldir Simões de Assis Filho apresentam uma
retrospectiva do período figurativo, o qual percorre
a obra de Ianelli dos anos 40 aos anos 60. “Os
primeiros tempos, os casarios e as paisagens de São
Paulo e seus arredores, os retratos e os interiores,
as marinhas e os barcos, até o período
de transição da obra constituem os blocos
da mostra que nos levam pelo coerente e lento caminho
que Ianelli percorreu até chegar à abstração”,
explica a filha e curadora Katia Ianelli.
Testemunha da intimidade criativa do pai desde menina,
Katia afirma que as fases foram sempre graduais, sem
saltos ou rupturas. De acordo com a análise de
Waldir Simões foi um crescimento que, em mais
de 60 anos de atividade intensa, passou pelo lirismo
da década de 40; pela conseqüente libertação
na década de 50, em direção à
modernidade; até chegar à década
de 60, com formas reordenadas e extremamente simplificadas,
reduzidas à essencialidade, o que decidiu o caminho
para a abstração. |
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20
anos
Katia ressalta que nas obras dos anos 40 é possível
perceber “os traços mais acadêmicos”
do artista, passando para o “fazer” romântico
da década seguinte, quando Ianelli começou
a realizar a pintura ao ar livre. Sem limite de horas
e com uma “severa disciplina” diária,
surge nos anos 50 o início da fase figurativa.
Junto aos artistas do Grupo Guanabara, do qual foi um
dos fundadores, Ianelli pinta os arredores, as ruas
e os bairros de uma São Paulo ainda pacata. “Esse
tempo da figuração coincide com um período
de poucas vendas e, como existiam raríssimas
galerias, era grande a dificuldade dos artistas para
exporem suas obras.”
Com isto, a década de 50 abrange um diversificado
registro da paisagem urbana paulista. Entre as obras
estão locais que não existem mais como
a fábrica da Brahma, à época instalada
no bairro Paraíso, ou de ruas e bairros completamente
transformados ao longo dos anos como o bairro de Tabatinguera,
Joaquim Távora e ruas de Vila Mariana. “Nessa
época, Ianelli também pintou muitas paisagens
rurais de São José dos Campos, onde costumava
passar temporadas em casa de parentes. Nascem daí
os vastos banhados verdes, o segredo de alguns cemitérios
e as pontes sobre o rio Paraíba do Sul.”
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Agrupados, os retratos e os interiores de ateliê
conduzem o espectador para dentro do ambiente de trabalho
do artista, “na intimidade de uma pintura realizada
entre quatro paredes.’ Segundo Katia, foi nesse
cenário que foram realizados os retratos dos
filhos, as cenas montadas das naturezas-mortas e até
algumas marinhas. “Neste segmento se percebe que
o que antes era uma superfície densa de pigmentos,
agora, em determinados trabalhos, faz lembrar uma aguada
aquarela. Encontramos a volubilidade de uma pintura
que transita da composição eminentemente
figurativa à quase abstração.”
Os barcos, as marinhas e os veleiros de 53 a 59, a represa,
os cais de porto, os armazéns, as praias de Santos
e Itanhaém foram reunidos pelos curadores em
outro bloco. “Ao final da década de 50,
encontramos marinhas com tons mais baixos, mastros e
bambuzais verticalizados, que trazem a marca de mudança,
do abandono anunciado da figura e da natureza. A partir
de 59, ocorre uma simplificação na concepção
da obra, reduzida a poucos elementos, em um prenúncio
de formas geométricas.”
Finalmente, Ianelli se dedica nos anos 60 às
composições finais da fase figurativa
e as naturezas-mortas ocupam grande espaço na
produção do artista. “As figuras
vão como que escapando ou se transformando em
retângulos e quadrados. Àrvores e casarios
tornam-se meros acidentes, pois a preocupação
principal passa a ser a cor e a composição
geometrizada.”
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O
Artista |
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Nascido
em São Paulo, em 1922, Arcangelo Ianelli praticou
o desenho desde a adolescência. A partir de 1940,
ampliou sua capacidade criativa e passou a se dedicar
à pintura, à gravura, à serigrafia,
às esculturas e aos relevos pintados. Durante
dois anos, entre 66 e 68, o artista viveu na Europa,
por conta do Prêmio de Viagem do Exterior ganho
pelo Salão Nacional de Arte Moderna.
Ativo participante do movimento artístico brasileiro,
Ianelli atuou não só como artista. Ele
estendeu sua participação também
como membro de comissões organizadoras de certames
artísticos. Reconhecido, Ianellli tem obras suas
em acervos de museus brasileiros e estrangeiros como
Estados Unidos, Japão, México, Venezuela
e em outros países da América Latina.
Em mais de 60 anos carreira recebeu diversos prêmios
nacionais e internacionais. Destacam-se as duas conquistas
do Prêmio da Associação Paulista
de Críticos de Arte (APCA) pelas retrospectivas
de 50 anos de pintura, em 1993, e de 60 anos de pintura,
em 2002; além do prêmio concedido pela
Associação Brasileira de Críticos
de Arte (ABCA) pela Melhor Trajetória de Artista,
em 2003.
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