Autora de uma obra bastante própria, Helena Wong (1938-1990) teve sua produção marcada pela obstinação que tinha pela vida e a paixão pela arte. Portadora de uma grave doença, desde os cinco anos de idade, o trabalho da artista tornou-se a fusão e a síntese de uma luta quase que diária pela sobrevivência.

A doença que, por diversos períodos, impediu ou limitou sua arte está profundamente ligada à produção de Helena. Em certas fases até definiu sua trajetória, cores e traços, resultando em uma vasta e rica produção que se espalhou pelo País e até pelo exterior. A exposição Helena Wong -A Trajetória de Uma Paixão, apresentada na série Artistas Paranaenses, retrata toda a expressividade e sensibilidade encontradas nas obras da artista.

Com curadoria do artista plástico e crítico de arte paranaense, Fernando Velloso, a mostra "apresenta uma visão temática retrospectiva das fases artísticas mais importantes da carreira de Helena Wong". A exposição é composta de aproximadamente 80 obras.
A presidente do Museu, Maristela Requião, tem especial apreço pela obra da artista, por ter convivido com a família dela e com a própria Helena Wong na época da Galeria Cocaco, a primeira de Curitiba. "Ela era uma pessoa leve, que se dava bem com a vida.
Tinha uma grande alegria de viver, mas no

 
fundo, se observarmos bem a obra, há traços de dor. Porém, o talento era maravilhoso e maior, sem nunca ter se deixado influenciar por um determinado artista. Fez uma arte própria."

A maior parte das obras expostas é de propriedade da irmã, Shou Wen Alegretti. Algumas pertencem ao acervo da instituição e outra parte foi coletada entre colecionadores particulares, a Fundação Cultural de Curitiba e o Museu de Arte Contemporânea do Paraná (MAC). De acordo com Velloso, entre as obras há desde os primeiros trabalhos, onde aparecem a caligrafia e a típica pintura chinesas, passando pelas fases figurativas e abstratas, até as obras mais dramáticas de cores vivas e chocantes, que marcam a maturidade artística atingida por Helena Wong.

O curador afirma que a obra de Helena Wong, vista em seu conjunto, é "a afirmação de sua intenção primeira, a de nunca abdicar da liberdade de criar, sem limites, nem regras". "Ela imprimia na totalidade de seu trabalho uma desordem proposital para tornar mais evidente seu objetivo. Evitava qualquer compromisso com uma seqüência lógica na obra ou mesmo uma temática que conduza o espectador a uma leitura coerente. Cada nova tela, cada desenho pintados, contém a reafirmação de seu desejo maior de busca incansável de uma renovada superação e afirmação de sua liberdade de artista."
 
     
Foram várias as fases em que a artista sentiu a necessidade de se superar e renovar a própria arte. Apesar de possuir formação acadêmica, a artista buscou uma forma particular de se expressar. "O que ressalta desde logo no desenho e na pintura de Helena Wong é o refinamento do conceito a emitir e de seu modo particular de concretizá-lo. Genericamente expressionista, seu trabalho oscila entre certa ambientação surrealista (com personagens referindo, em aberto, o drama, a dilaceração e a sensualidade), em torno de deformações da figura e violência cromática, e, especialmente nos desenhos, atmosferas quase por completo abstratas, onde circulam sugestões de grandes espaços vazios, apenas ocupados por tênues movimentos de formas alusivas em levitação. Uma multiplicidade de traços, arregimentados em massas indefinidas de cor se assemelhando a vapores libertos ao ar, indicam como uma de suas características básicas a agilidade caligráfica, resíduo ainda da origem oriental em que ela permanece mergulhada. Extrema fragilidade física parece, nesses desenhos e pinturas, transfigurar-se na força de um mundo armado de pura imaginação", escreveu o crítico Roberto Pontual em 1973, ano em que a artista participou do 22º Salão Nacional de Arte Moderna, no Rio, com isenção do júri.

 
   
 
 
  A trajetória

Nascida em Pequim (China), em 1938, com o nome Mie Yuan, a pintora, desenhista e gravadora se iniciou na pintura aos cinco anos (1943). Por incentivo da mãe, Alice Wong, Helena começou a fazer cópias de estampas chinesas a fim de ocupar-se durante seus longos períodos de imobilização, em decorrência da doença. Aos nove (1947), já em Xangai, iniciou sua formação com um velho mestre, na Academia Arco-Íris Longo. Na academia teve contato com a técnica da caligrafia e com a pintura oriental tradicional.

Um ano mais tarde, em 1948, a família se transferiu para Hong Kong, fugindo do regime comunista, onde permaneceu por dois anos e tomou conhecimento e gosto pela arte ocidental. A família imigrou para o Brasil em 1950, e por um curto período viveram no Rio de Janeiro até fixar residência definitiva em Curitiba. No Brasil, adotou o nome de Helena Wong e aos 15 retomou os estudos de pintura. Helena freqüentou, na década de 50, por um período, a Escola de Música e Belas Artes do Paraná e o ateliê de Thorstein Andersen (1953).

Em 1962, a artista, então com 24 anos, naturalizou-se brasileira e, no ano seguinte, iniciou-se em gravura, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Morando no Rio, realizou a primeira exposição individual, na Galeria Santa Rosa. Devido ao agravamento da doença, em 1972 retornou para Curitiba.
Já respeitada nos meios artísticos, Helena Wong participou de 1963 a 1989 de mais de uma centena de exposições coletivas, com participação em três bienais internacionais de São Paulo, e em cerca de 20 mostras individuais. No Brasil, a artista teve suas obras expostas em Curitiba (PR), São Paulo (SP), Rio (RJ), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Campo Grande (MS) e Fortaleza (CE). Também participou de exposições coletivas no exterior em Córdoba (Argentina), Londres (Inglaterra), Paris (França), Salzburgo (Áustria) e Flórida (Estados Unidos).

Reconhecida e sempre ativa participante dos movimentos artísticos nacionais, Helena Wong teve sua obra difundida e valorizada nos lugares em que expôs. Razão pela qual o curador da presente mostra, Fernando Velloso, tem a intenção de ainda tentar recuperar, "pelo menos fotograficamente", tudo que foi produzido pela artista. "A obra é riquíssima. Helena trabalhou muito e a produção dela se espalhou pelo Brasil, sem que nunca tenha sido feito um levantamento adequado." Helena Wong faleceu em 1990, em Curitiba.

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