Duas perspectivas opostas sobre o corpo humano, “nu” ou “vestido”, são reveladas pelo olhar das artistas espanholas Isabel Munõz, fotógrafa, e Maribel Doménech, escultora. A fotógrafa centra seu foco na dimensão plástica e antropológica de corpos realçados por escarificações –cicatrizes–, pinturas e tatuagens utilizadas por povos da Etiópia. Enquanto Maribel sugere vestimentas que pontuam o imaginário humano em seus comportamentos sociais.

A exposição foi organizada pela Sociedad Estatal para la Acción Cultural Exterior (SEACEX), pelo Ministério de Assuntos Exteriores e de Cooperação da Espanha e pelo Consórcio de Museus da Generalitat Valenciana, com o apoio da Embaixada da Espanha no Brasil. A mostra reúne 48 fotografias, em preto e branco, exibidas em grandes painéis, a maioria de 1,50m por 1,10m, selecionados pelo curador Amador Griño, profundo conhecedor da obra da artista. As imagens foram registradas pela fotógrafa durante suas viagens aquele país entre 2003 e 2006. As fotos inspiraram a série “A pele dos filhos de Gea”, duas vezes premiada, em 2000 e 2005, no World Press Photo, nas categorias de reportagem artística e retrato.

 

Paradoxalmente, as fotos de Isabel Muñoz mostram que o corpo nu não está necessariamente nu. Os adereços de metal e miçangas e as interferências feitas na pele podem representar o mesmo papel decorativo de uma peça de roupa, como fazem os homens e as mulheres de diversas tribos do Sul da Etiópia, como os body, nyangaton e surma. Uma prática que preserva e mantém vivos os costumes dos antepassados. “Isabel nos transmite uma visão muito pessoal e íntima das pessoas que fotografa”, afirma o curador. Griño explica que desde a antiguidade há registros das marcas corporais intencionais, sejam as tatuagens ou as pinturas decorativas. “Sempre tiveram importância em todas as sociedades primitivas e nas civilizações antigas.”

As escarificações são feitas pelo traumatismo intencional, por incisões ou queimaduras, que produzem na pele cicatrizes e quelóides que funcionam como adornos. As marcas, tatuagens e cicatrizes formam linhas horizontais, verticais e formas geométricas que ressaltam os movimentos, as linhas dos músculos ou em representações de animais com os quais os guerreiros mantêm uma identificação transcendental. “Para mim, o corpo é um livro do que somos, um pretexto para falar do mundo dos sentimentos. Não se pode viver sem luz, sem sensualidade”, diz a fotógrafa.

Sob o aspecto antropológico, o curador pondera que “um menino recém-nascido, mudo e nu, não se diferencia de um animal, mas no momento que uma tatuagem, um desenho, uma miçanga o adorna, passa a tomar parte do humano, do mundo da cultura concreta onde nasceu”, escreve Griño no catálogo da exposição. Os desenhos obtidos pelas escarificações e pinturas identificam o clã ao qual pertencem.

Os Vestidos de Maribel

O oposto, a vestimenta, é o tema das obras de Maribel Doménech, filha de um escultor e de uma modista. É a partir dessa combinação que a artista, desde 1994, associa seus conhecimentos para conceber intrigantes e insinuantes figurinos, tricotados em fios elétricos e iluminados por néon. Ela diz em sua apresentação, no catálogo, que não pode separar escultura e biografia. “(...)Todo meu trabalho reúne processos emocionais e tecnológicos que tenho desenvolvido mediante séries de trabalhos (...).”

Para Griño, Doménech analisa o vestido como envoltório do corpo, “dessas formas que tanto lhe interessam e que tanto condicionam todas as suas esculturas –segundas peles”. O curador selecionou quatro peças produzidas em 1998: “Como uma casa cheia de luz”, o vestido branco, “Para observar o mundo a uma certa distância”, o vestido preto, “Armas de Mulher”, duas agulhas de tricô presas a uma tanga, e “Sete palavras acerca da sexualidade”, sete calcinhas coloridas, de onde pendem fios que se misturam ao chão.

Ele destaca que os vestidos, branco e negro, “integram parte de uma trilogia inacabada sobre o tempo, “tecer o tempo”, onde o passado, o presente e o futuro transformados alegoricamente nestes imensos e pesados vestidos femininos, que cobrem e envolvem o imaginado e o ausente corpo, se expandem pela presença da forma luminosa ou criam uma barreira intransponível ao seu redor”.



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