Obra

Ásia: a Terra, os Homens, os Deuses

curador: Fausto Godoy e Teixeira Coelho
local: Sala 5

Museu Oscar Niemeyer realiza grande mostra com peças da Coleção Asiática

Exposição apresenta ao público uma seleção de 200 peças provenientes de mais de 10 países asiáticos

O Museu Oscar Niemeyer (MON) realiza uma grande exposição com cerca de 200 peças da coleção de arte asiática - dentre as 3 mil doadas ao museu pelo embaixador Fausto Godoy - reunidas por ele ao longo de sua carreira diplomática. 

“Ásia: a Terra, os Homens, os Deuses”  tem curadoria de Fausto Godoy e Teixeira Coelho, reúne peças raras e de forte conteúdo simbólico, provenientes de mais de 10 países, como China, Japão, Índia, Paquistão, Butão, Irã, Afeganistão e Myanmar.

Há peças como as cerâmicas do Vale do Indo, que podem chegar a 7 mil anos (V-II milênio A.C.), gravuras japonesas e indianas, o espírito protetor de jade (guardião de túmulo), do período neolítico chinês; além dos ornamentos e outras peças da Ásia Central, entre elas várias do planalto tibetano, que revelam o valor singular desta coleção. 

Coleção Asiática

O embaixador Fausto Godoy adquiriu esta coleção enquanto serviu em onze postos de trabalho na Ásia: Índia, China, Japão, Paquistão, Afeganistão, Vietnã, Taiwan, Iraque, Bangladesh, Cazaquistão e Myanmar.

A negociação sobre a doação do seu acervo ao museu iniciou-se há dois anos. Ao longo desse período o embaixador fez algumas visitas ao museu, para analisar, avaliar e se certificar das boas condições do espaço para abrigar uma coleção desse porte. Antes disso, instituições e colecionadores disputavam a coleção. Após criteriosa avaliação, ele decidiu-se pela doação ao Museu Oscar Niemeyer.

Este acervo alinhou-se à nova linha curatorial proposta pelo conselho cultural do MON, com ênfase na arte asiática, africana e latino-americana, em consonância com os grandes museus do mundo, tornando-o distinto da tendência eurocêntrica que domina a cultura ocidental.

Com esta doação, o MON passa a ter em seu acervo cerca de 7 mil obras, além de uma das coleções asiáticas mais significativas do Brasil e da América do Sul. 

Serviço:
Exposição “Ásia: a Terra, os Homens, os Deuses”
2 de março de 2018
Longa duração
Sala 5

Museu Oscar Niemeyer
Rua Marechal Hermes, 999
41 3350 4400
Terça a domingo, das 10h às 18h
Quarta Gratuita, das 10h às 18h
Retirada de ingressos: até 17h30
www.museuoscarniemeyer.org.br

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O GESTO E O DETALHE

Teixeira Coelho
curador da exposição

Esta exposição, miniatura da coleção Fausto Godoy, é um mundo em si mesma. Um outro mundo. Esse mundo ainda é um outro mundo, um mundo em mais de um aspecto distinto daquele que se denomina mundo ocidental. E como sempre que se entra num mundo estranho, a primeira sensação é a de caos, falta de ordem. Objetos, figuras, parecem massa indistinta. A forma, na primeira olhada, está vazia.
Mas esse mundo logo começa a propor sua ordem própria, seu sentido. O primeiro marcador dessa ordem é o gesto: o gesto evidente — a mão espalmada apontando para cima ao lado da outra voltada para baixo; dedos de uma mesma mão a compor uma figura cujo sentido escapa mas que é impossível deixar de notar. O gesto está por toda parte — porque o corpo está por toda parte.
E há também o gesto invisível, o gesto subjacente que deu origem ao gesto explícito. Esse outro gesto embute-se na confecção dos tecidos, feitos à mão em tear; nos bordados; na curvatura imprimida a um fio de bambu de modo a dar-lhe a forma dessas magnetizantes peças de laca de Myanmar; no entalhe de cadeiras e arcas; no texto inscrito (ao mesmo tempo, texto pintado) das caligrafias japonesas. 
E neste momento surge, inesperado, o sentido de visitar esse outro mundo: trata-se de compreender “nosso” mundo, este mundo ocidental — entender melhor, pelo menos, esta arte ocidental da qual o gesto foi aos poucos removido. Na iconografia da arte ocidental há um gesto ímpar: o gesto da mão de Deus, dos dedos de Deus que se esticam buscando tocar na ponta do dedo de Adão, gesto magnífico e eterno de Michelangelo que com ele cria um mundo à parte. Esse gesto patente, que ainda persiste em Leonardo, aos poucos some da arte ocidental: já é quase nulo no impressionismo, desnecessário no cubismo, inexistente e esvaziado no abstracionismo. Algum gesto implícito subsiste, como na action painting de Jackson Pollock. O gesto patente, porém, entrou em recessão. Foi removido da arquitetura depois do art nouveau, desapareceu do mobiliário (e não só porque se tornou caro demais). No entanto, existe e permanece no “Oriente”. 
O segundo marcador da ordem deste outro universo é o detalhe. Esse é o universo do detalhe, que decorre do gesto. Por toda parte tudo é feito de detalhe: a visão de conjunto não permite a apreensão do que está sendo mostrado, é preciso escanear o detalhe com o olhar — mesmo se o preço a pagar for a impossibilidade de remontar todos os detalhes numa forma inteira a dar-lhes algum sentido que na verdade inexiste fora e além de cada detalhe. E outra vez ver esse mundo significa ver melhor este mundo “aqui”, pelo menos esta arte daqui, a arte ocidental da qual o detalhe foi sendo retirado tanto quanto o gesto: o impressionismo é o reino do conjunto e cubismo, abstracionismo, conceitualismo não têm função para o detalhe. Mas nesse território imaginário que é a Ásia e sua arte, nada existe fora do detalhe. 
E o detalhe transforma-se em ornamento e tudo é ornamento ao lado de outro ornamento, tudo é ornamento de outro ornamento. O “ocidental”, que vive num mundo estilizado, reduzido, simplificado (e, hoje, empobrecido) — da arquitetura ao objeto surgido do design — desacostumou-se do detalhe e do ornamento.
No universo desta exposição, tudo provém da combinação do gesto com o detalhe. E dela surge uma outra ideia de beleza, habitualmente traduzida (e negada) no rótulo de mau gosto colado a tudo que é asiático. Os detalhes são inúmeros e cada um é mais excessivo que outro. Mas para entendê-los e entender o gosto asiático é preciso ter em conta que esses objetos não se propõem a qualquer tipo de ascese, transcendência, idealismo: o que existe está no gesto visível, no detalhe evidente. O “bom gosto” só é possível quando se busca escapar do que existe. Não se trata de fazer a apologia do “valor oriental” e desprezar o “valor ocidental”, deste modo inapropriadamente referidos: um valor é diferente de outro valor, trata-se de entender o que cada um propõe e a razão da proposta. Quando não se buscam a ascese, a purificação e a depuração, a régua do gosto é outra. Bem diferente.
Nada, no entanto, é trivial, nada é fortuito — porque nada do que está aqui resulta do improviso e do impensado.
O primeiro guia a oferecer ao visitante é portanto este: repare no gesto, no detalhe; perceba que cada objeto visível está intencional e perenemente preso a algo que existe nesta terra mesmo se aponta para alguma coisa na aparência fora dela (as divindades). A terra, os humanos e os deuses formam uma figura coesa cuja medida do prazer, que indica o gosto, é outra.
Duas ou três linhas adicionais contribuem para a construção do sentido da visita. Aqui se veem peças antigas, algumas muito antigas (cinco mil anos a.C.) e outras que são de hoje, que foram feitas hoje. Se estas também se expõem é porque neste mundo asiático não há interrupção entre o velho e o novo, apenas continuidade entre um e outro. O novo é feito como o antigo, não por falta de originalidade (“valor ocidental”) mas porque a ideia é a permanência. O autenticamente “antigo”, o “velho”, pode ter maior valor monetário num leilão; não é esse valor, porém, que aqui interessa. O valor central nesta exposição é o da eficácia do símbolo: se algo foi feito de acordo com as regras, se está enquadrado num sistema, vale. No mesmo rumo, as ideias de original e cópia não são as mesmas do universo ocidental. Nesse universo asiático há gestos que se destacam, como os de Hiroshige na gravura; e a ideia do falso, da contrafação em contraste com o autêntico, permanece. Mas fazer agora assim como era feito antes não carrega o pecado original próprio da arte “ocidental”.
Ainda uma questão: o que está aqui é arte ou tema para a etnologia? Talvez a pergunta certa seja: como pode o olho ocidental deixar de ver isso como arte?
“Arte”, com o sentido específico que hoje tem neste lado do mundo, é uma ideia recente, que não existiu sempre e que provavelmente não existirá para sempre — ou assumirá outro sentido. A distância entre a noção de arte e de outros gestos a ela próximos, como o do artesanato, é muito menor no “Oriente”, tão reduzida que ambos os conceitos, arte e artesanato (assim como arte e vida), podem legitimamente fundir-se num só. Então, sim: o que se vê aqui é arte.
Esta é uma exposição do velho, do passado. A Ásia de hoje é muito mais do que isso: as grandes cidades da China do século 21, como Shenzhen, os centros urbanos hipermodernos do Japão (como a sede da prefeitura de Tóquio, projeto de Kenzo Tange) e a nova realidade física da Índia incluem vários dos traços do capitalismo mundial moderno, da ascensão do padrão ocidental, do futuro como realidade técnica já para este momento. Mas a Ásia continua a manter o tipo de ligação com o passado que se vê nesta exposição: o gesto fundador desse passado continua ativo.

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Nat (guardião) | Myanmar, século XX | Madeira e laca com policromia, douramento e incrustações de vidro | Foto: Sérgio Guerini
Nat (guardião) | Myanmar, século XX | Madeira e laca com policromia, douramento e incrustações de vidro | Foto: Sérgio Guerini
Cavalo de ritual tumular | China, dinastia Han, século. II a.C  - II d.C. | Cerâmica com policromia | Foto: Sérgio Guerini
Cavalo de ritual tumular | China, dinastia Han, século. II a.C - II d.C. | Cerâmica com policromia | Foto: Sérgio Guerini
Cadeira de espaldar curvo |  China, dinastia Ming (1368-1644) | 
Madeira (jichimu, ormosia heisei) | Foto: Sérgio Guerini
Cadeira de espaldar curvo | China, dinastia Ming (1368-1644) | 
Madeira (jichimu, ormosia heisei) | Foto: Sérgio Guerini