O desenho na trajetória de Cildo
Nascido no Rio de Janeiro em 1948, Cildo Meireles morou no Pará, em Roraima, Goiás, Brasília (1958-1967) e no Maranhão, acompanhado do pai indianista, funcionário do Serviço de Proteção aos Índios e integrante da equipe original de Marechal Rondon. Os primeiros desenhos foram vendidos pelo artista aos nove anos de idade, na escola primária, em Belém do Pará. No Natal de 1957 ganhou da mãe um kit de pintor, composto de telas, pincéis e óleo de linhaça.
Em Brasília, aos 15 anos, começou a freqüentar o ateliê livre da Fundação Cultural do Distrito Federal, onde praticava desenho de sólidos, naturezas-mortas e com modelo vivo, sob orientação do artista peruano Felix Alejandro Barrenechea. Nesse mesmo ano, em 1973, passou por Brasília uma exposição de arte africana de um acervo do Senegal, que influenciou profundamente o desenho de Cildo Meireles.
Ele conta que seus trabalhos que enfatizam bocas, olhos e dentes no rosto humano têm paralelo com a síntese que identificou na escultura africana. Para Cildo, “a boca escancarando a arcada dentária pode resumir o escárnio e a dor, a alegria e o medo, a autoridade policial e a vítima, o torturador e o torturado”, e assim sucessivamente.
Dois anos depois de ganhar o grande prêmio do Salão da Bússola (MAM – Rio ), em 1969, Cildo foi morar em Nova York, onde pouco desenhou. De 1969 a 1973, o artista abandonou o desenho espontâneo, sem intenções, dedicando-se a projetar objetos sobre papel, instalações e trabalhos mais conceituais. Nessa fase, logo depois da série de desenhos “Espaços Virtuais: Cantos” (1968), ele achava que “não era honesto desenhar, por ser um meio de expressão impulsivo e irracional”.
Desencantado com o circuito brasileiro de arte e com uma Nova York hesitante em relação à arte conceitual, o artista voltou seu interesse para o rock e o jazz. Até o dia em que visitou uma retrospectiva de Matisse no MoMA, quando ficou convencido de que não se poderia dizer que a pintura ou o desenho haviam morrido.
De volta ao Brasil em 1973, retomou o desenho e nunca mais parou. Ele continua desenhando e realiza o que chama de “diário visual”, apesar de ser em um ritmo menos intenso, devido às muitas viagens internacionais que passou a fazer a partir de 1990. Quando Cildo compara seu desenho de décadas atrás aos de hoje, observa que o que antes era “sofrimento, crônica social, política e catarse” dá lugar à “poesia”. Retrospectivamente, o artista diz constatar com alegria e, às vezes, surpresa que questões apresentadas em “não-desenhos” já apareciam nos desenhos. Um exemplo é a instalação “Homeless Home”, que apresentou na Bienal de Istambul (Turquia), em 2003, cuja origem está em um desenho de 1968. |