As 85 peças de cerâmica em exibição, datadas de 600 a 1600 dC, são exemplares raros e valiosos dos diversos padrões de desenhos realizados por sete “pueblos” indígenas do Sudoeste norte-americano. São utilitários do cotidiano desses povos indígenas, como pratos, potes, jarras e até recipientes que, provavelmente, eram utilizados como urnas funerárias. É a memória presente de um passado distante, pré-histórico, em obras que cobrem todo um milênio.

As obras pertencem à coleção particular do casal Robert e Chitranee Drapkin, de Clearwater, apontados entre os 100 maiores colecionadores dos Estados Unidos pela revista “Art & Antiques”. Os trabalhos em exposição foram apresentados, no início deste ano, no Museum of Fine Arts, de Boston, (MFA), responsáveis pela organização desta mostra em Curitiba, possibilitada pelo patrocínio da Sanepar e o apoio do Ministério da Cultura, Governo do Paraná e Caixa.

História e Arte

A criação da cerâmica no Sudoeste americano começou por volta dos anos 100 dC. Os objetos na coleção Drapkin iniciam em 600 dC e acabam pouco depois de 1540, quando os exploradores espanhóis começaram a escrever a história do Sudoeste. Pesquisadores e acadêmicos ainda estão tentando entender o povo que produziu as inspiradas cerâmicas. Eles contam com a ajuda de escavações arqueológicas e descobertas, tanto de objetos como de ruínas.

Até mesmo o Dr. J.J. Brody, um dos principais especialistas em cerâmica antiga do Sudoeste, escreve na introdução do catálogo desta exposição que “ o passado antigo, na melhor das hipóteses, é um território incerto, há limites para o que se pode conhecer. Por exemplo, jamais saberemos quais, se alguma, das primeiras tradições da cerâmica representam um grupo auto-consciente ou “cultura”, nem o modo como qualquer um desses grupos de ceramistas se chamava, nem a língua que qualquer um deles falava.”

Mas nós sabemos algumas coisas. O povo, cujo trabalho está exposto, viveu no que hoje nós conhecemos como um imenso pedaço do Sudoeste norte-americano e partes do norte do México- Arizona, quase todo o Novo México, o sul de Utah, o sul do Colorado, o norte de Sonora e Chihuahua no México. Esse povo era, em sua maioria, formado por fazendeiros e essas peças foram criadas pelas mulheres. Como os fazendeiros atuais, o povo antigo do sudoeste era fortemente ligado à natureza e os seus ciclos. Muitos desses objetos apresentam imagens de animais, peixes e pássaros.

A mostra apresenta uma ampla visão do trabalho feito pelos grupos, hoje chamados pelos estudiosos, de Hohokam, Mogollon e Pueblo pré-histórico. Eles estavam ativos na região sudoeste há 1500 anos antes da chegada dos espanhóis. Outros dois vieram mais tarde, no século 13: Salado e Casas Grandes.

O Dr. Brody, no entanto, escreveu que “Eu não estou sozinho (não sou o único) acreditando que o design da cerâmica da tradição Salado muito provavelmente não expresse uma ‘cultura’, mas sim um ponto de vista religioso-filosófico, inter-cultural pan-sudamericano. Este não é um “fato”, mas uma hipótese a ser testada. Suspeito também que a tradição Casas Grandes seja igual.”

Ele propõe que esses objetos, apesar de funcionais, freqüentemente tinham implicações espirituais e representam uma “visão de mundo” que unia o sagrado ao leigo (mundano, secular). Também parece haver certa similaridade em algumas imagens e temas (motivos) representados pelas culturas nativas do sudoeste e aqueles dos Maias e Aztecas, na América Central. Viagens e compartilhamento de objetos e têxteis provavelmente transmitiram uma troca cultural

Fusão cultural

Para unir as pistas da cerâmica antiga, os acadêmicos continuam a buscar as tradições dos descendentes contemporâneos dos povos nativos. Barbara L. Moulard, outra importante estudiosa, escreve em seu ensaio para o catálogo que “pássaros voando, imagens que dominam as pinturas figurativas Hohokam e Mimbres, podem estar relacionados aos mitos contemporâneos de Pueblo e O’Odaham, onde pássaros levam os míticos ancestrais do Mundo Inferior, encontrando um buraco na cúpula do céu que leva ao Mundo Superior”.

A beleza desses objetos pode ser admirada em seus próprios termos, independente de seus significados culturais. A complexidade dos designs abstratos em alguns desses objetos é “assustadora e revela culturas que obviamente valorizavam a habilidade e a criação artística”. Muitas dessas peças de cerâmica transmitem um senso de harmonia e ordem, onde as formas da cerâmica em si “são impressionantes e algumas em forma de pássaros, como uma tigela de papagaio de duas cabeças, são ricamente imaginativas”.



voltar página inicial